O Rosacrucianismo é um movimento tradicional? Existe um Rosacrucianismo “clássico”?

Por Frater M.F

societassalomonica@yahoo.com

O Rosacrucianismo é uma das principais correntes esotéricas da modernidade. O movimento rosacruz é parte integrante do Esoterismo Moderno, e as Ordens neo-rosacruzes são quase uma unanimidade aos buscadores que procuram instituições esotéricas que lhes pareçam “sérias” e “tradicionais” (mantendo um ar cristão). Nesse sentido, as Ordens rosacruzes parecem preencher esses quesitos de maneira satisfatória.

Todavia, apesar de aparentar ser uma corrente filosófica clássica, o Rosacrucianismo está longe de ser considerado um movimento espiritual alinhado à Sagrada Tradição: as bases do pensamento rosacruz são, na verdade, completamente alheias à ideia de Tradição, e rejeitam toda e qualquer vestígio da espiritualidade clássica ocidental (BETTENCOURT, 1958). Ainda assim, muitos estudantes sinceros de esoterismo da modernidade se deixam convencer pelo discurso rosacruciano de “autonomia do Homem”, “liberdade espiritual” e “revolução de pensamento”.

O objetivo deste artigo é mostrar ao leitor que, assim como outros movimentos espirituais contemporâneos (que se travestem de um ar “clássico” para arrogar a si  alguma autoridade histórica, sem ter bases de comprovação dessa autoridade), o Rosacrucianismo é na verdade uma corrente esotérica moderna, alinhada aos ideais da Reforma Protestante e do movimento renascentista do século 16.

Inicialmente, apresentaremos ao leitor um pequeno esboço histórico do movimento rosacruz, analisando seus pressupostos filosóficos como maneira de mostrar a você estudante da Sagrada Tradição, porque o Rosacrucianismo nunca poderia ser considerado algo tradicional. Para isso, recorreremos a autores como Churton (2009), Bettencourt (1958) e Guénon (2017).

Finalmente, faremos uma breve comparação entre o neo-Rosacrucianismo do século 19, e o Rosacrucianismo “clássico” do século 17, mostrando a você leitor que apesar de haver diferenças de abordagem da filosofia rosacruz entre esses dois movimentos, ambos continuam sendo correntes esotéricas anti-tradicionais e completamente afastados da Tradição Espiritual Ocidental.  

  1. Entendendo o movimento rosacruz

O Rosacrucianismo “clássico” foi um movimento de insurreição filosófica inicialmente divulgado na Alemanha e na Holanda, e que foi propagado em outros países europeus nos anos seguintes (Inglaterra, Áustria, Prússia, Hungria, e até na Rússia).

O primeiro “manifesto rosacruz” (a Fama Fraternitatis) é considerado pelos rosacruzes como uma espécie de “bíblia filosófica”, e divulga os pressupostos metafísicos e filosóficos do Rosacrucianismo “clássico”. A Fama Fraternitatis foi inicialmente divulgada no início do século 17, no ano de 1614. A partir desta informação, já temos uma constatação sugestiva a você leitor: o movimento rosacruz “clássico” teve início no mesmo país onde eclodiu a Reforma Protestante (Alemanha), aproximadamente 1 século após a divulgação das teses reformistas de Martinho Lutero (divulgadas em 1517). Seria isso uma coincidência histórica? Para o pesquisador Tobias Churton, não.

O Rosacrucianismo é um movimento esotérico de base totalmente protestante. Na foto acima, vemos uma das árias comprovações da associação entre o movimento rosacruz e a reforma luterana: a semelhança entre o Brasão de Lutero e o selo Rosacruz é explícita.

Segundo Churton (2009), as bases do pensamento rosacruz são completamente protestantes. Para o autor, a Fama Fraternitatis foi um produto direto da reforma luterana, que já estava em voga na Europa do século 17. Não por acaso a linguagem da Fama Fraternitatis é completamente antropocêntrica, centrada numa visão mágica do ser humano, com clara influência liberal e rejeitando noções teológicas e metafísicas sobre a Sagrada Tradição.

Esse pensamento liberal da Fama Fraternitatis fez o Rosacrucianismo “clássico” adotar uma postura essencialmente panteísta sobre a Criação: para o autor da Fama Fraternitatis, Cristo não podia ser interpretado pela ótica católica; ao contrário: devia ser interpretado por um viés mágico, esotérico, sempre o associando à interpretação pessoal de cada buscador. Assim:

Cristo não estava apenas crucificado sobre o altar, ou além das estrelas fixas à mão direita de Deus. Cristo estava no coração do crente, e uma vez entronizado no centro do ser do Homem, Ele poderia ser encontrado em todos os lugares. (CHURTON, 2009, p. 34).

Como se vê, o pensamento rosacruz “clássico” bebe dos mesmos ideais protestantes de Lutero: como fruto da reforma luterana, o Rosacrucianismo vai procurar fazer alianças filosóficas com toda e qualquer corrente de pensamento e movimento espiritual que se contraponha de alguma maneira ao Catolicismo e à Roma. Assim, não é de espantar que o Rosacrucianismo defenda ideias espirituais de inimigos históricos da Sagrada Tradição, como o Gnosticismo e até mesmo o Islamismo! (considerado pelos rosacruzes como uma “fonte de bom senso e sabedoria”).

Para os rosacruzes, a busca pelo sagrado deve ser uma busca individual e descentralizada (um pensamento claramente gnóstico). Assim, o contato com o sagrado (Cristo) deve ser feito sempre de forma relativizada, da maneira como cada buscador achar conveniente. Na prática, o movimento rosacruz rejeita também a Sagrada Liturgia, uma vez que desconsidera a importância da Tradição nas celebrações, e rejeita quaisquer vestígios tradicionais nas práticas espirituais. Isso deixa mais do que claro que o chamado “Rosacrucianismo clássico” é na verdade um misticismo de caráter protestante (KREEFT, 2008).

Filosoficamente falando, o Rosacrucianismo teve sua divulgação iniciada um pouco antes da explosão do movimento iluminista na Europa. Ainda assim, os manifestos rosacruzes já estavam impregnados das correntes filosóficas que seriam espalhadas na Europa nos anos seguintes: o Relativismo; o Humanismo Antropocêntrico; o Panteísmo (divulgado abertamente na Fama Fraternitatis); o Materialismo (já divulgado de maneira discreta na Reforma Protestante); e principalmente o Liberalismo…uma das correntes filosóficas iluministas mais prejudiciais ao homem ocidental.

Para o teólogo Dom Estêvão Bettencourt, a análise filosófica do movimento rosacruz é relativamente simples, uma vez que

“O Rosacrucianismo não é senão uma das expressões da tendência ao ocultismo e à constituição de sociedades secretas, tendência que aparece no gênero humano desde remotas épocas. […] Ainda hoje se encontram tais sociedades, que constituem verdadeira rede invisível de auxilio mútuo: a cabala medieval, a franco-maçonaria posterior ao século 16, a gnose antiga e moderna e também o Rosacrucianismo não são senão cristalizações mais ou menos densas de tal tendência. (BETTENCOURT, 1958, p. 2).

Outra característica marcante do Rosacrucianismo é a busca incessante por argumentos de autoridade mitológica que dêem ao movimento algum tipo de validade histórica. Para Guénon (2017) essa é uma tendência dos movimentos esotéricos modernos, que justamente por não serem tradicionais precisam sempre recorrer à Tradição como forma de puxarem a si algum tipo de respaldo filosófico.

Os manifestos rosacruzes “clássicos” (Fama Fraternitatis, Confessio Fraternitatis, e Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreutz) alegavam ter sido transmitidos pela figura misteriosa de Christian Rosenkreutz, um iniciado que teria tido experiências místicas em viagens ao Oriente Médio, onde teria tido contato com os povos árabes e recebido “chaves elevadas de iniciação espiritual”. De certa forma, esse era um discurso comum nas Ordens Iniciáticas dos séculos 17 e 18, que já bebiam das ideias reformistas e iluministas que se espalhavam na Europa, dentre elas:

a) A ideia de que o Ocidente estava “corrompido” pelo Catolicismo, e de que a “corrupção moral” católica seria “purificada” pelo Protestantismo, que se apresentava como o “verdadeiro cristianismo” (assim como o Gnosticismo também se apresentava!);

b) A ideia falaciosa (advinda do Renascimento do século 15) de que a Idade Média havia sido um período de “trevas e escuridão”, e de que o Rosacrucianismo serviria para divulgar de forma “sábia” os “ensinamentos” da Reforma, estimulando uma visão particular de ciência paganizada que originou um pré-cientificismo promotor de um culto ao “saber científico” (sob a ótica rosacruz);

c) A relativização de conceitos tradicionais pertencentes à Tradição Espiritual Ocidental, inclusive propondo um questionamento à classificação dos inimigos históricos da Sagrada Tradição. Assim, para o Protestantismo (e consequentemente para o Rosacrucianismo) todos os grandes rivais da espiritualidade clássica do Ocidente não eram tão “maus” assim, e seriam “vítimas” da “difamação” que o  Catolicismo promoveu “deturpando” suas imagens (CHURTON, 2009). Por isso, o Rosacrucianismo dá tanta ênfase à cultura árabe e aos muçulmanos…assim como abraça abertamente ideias gnósticas e protestantes.

Assim como outros movimentos esotéricos modernos, o Rosacrucianismo também precisou de um “mito de criação”. Assim, a figura de Chrystian Rosenkreutz ganhou fama no movimento rosacruciano do século 16, como fundador e “pai” da Ordem Rosacruz.

Segundo Churton (2009), o mito de uma pretensa origem mítica dos manifestos rosacruzes é desconstruído de forma definitiva quando se comprova o fato de que o personagem Christian Rosenkreutz não possui validação histórica: trata-se pura e simplesmente de uma entidade fictícia construída como pilar de sustentação para a divulgação das ideias rosacruzes do século 17. Esse tipo de estratégia foi utilizado também pela própria maçonaria moderna (também chamada de “maçonaria especulativa” ou “simbólica”), que usou o personagem Hiram Abiff para sustentar o mito de uma origem maçônica lendária (que na verdade teve sua origem pós-século 15).

Tobias Churton vai ainda mais além, e comprova (através de farta documentação histórica) que a verdadeira figura por trás do movimento rosacruz “clássico” é Johann Valentin Andreae (1586 – 1654), um teólogo luterano alemão que criou todo a metafísica rosacruz (assim como os manifestos rosacruzes) e o usou a divulgação desse movimento para enfatizar a propagação das ideias reformistas na Alemanha e na Holanda (CHURTON, 2009).

De certa forma, fica-nos claro aqui que a pretensa “mística” dos manifestos rosacruzes “clássicos” na verdade não tinha nenhuma profundidade teológica ou filosófica; o movimento rosacruz “clássico” não se preocupava em defender uma Metafísica estabelecida ou uma doutrina espiritual coesa: tratava-se na verdade de um movimento mais político que espiritual propriamente dito, e que serviu como braço de divulgação das ideias reformistas luteranas, propondo discussões de caráter pseudo-científico e alheias ao ambiente acadêmico (uma característica de Lutero, que rejeitava abertamente as Universidades). Ao mesmo tempo, O Rosacrucianismo “clássico” misturava ideais pseudo-científicos com um esoterismo vago e ambíguo de caráter anti-tradicional (como veremos a seguir).

  1. As bases do pensamento rosacruz, e a rejeição explícita do Rosacrucianismo à Sagrada Tradição

A esta altura, já deve estar ficando mais claro a você leitor, que o movimento rosacruz não é uma filosofia tão “clássica” assim como propõe ser: trata-se pura e simplesmente de uma corrente esotérica moderna, completamente alinhada aos ideais luteranos e fruto direto da Reforma Protestante (GUÉNON, 2017).

Só essa breve descrição, por si só já deveria ser suficiente para comprovar que o Rosacrucianismo nunca poderia ser uma corrente filosófica pertencente à Tradição Espiritual Ocidental. Porém, ainda assim, muitos rosacruzes da atualidade insistem em defender ideias relativistas sobre o conceito de “Tradição”, e defendem (muitas vezes até de forma sincera, apesar de terem pouco estudo a respeito do tema) que o movimento rosacruz seria uma das diversas “correntes alternativas” da espiritualidade ocidental.

De certa forma, compreendemos a honestidade de intenções de muitos estudantes rosacruzes em suas jornadas espirituais. Gostaríamos de deixar claro que não é intenção deste artigo criticar a opção espiritual desses buscadores, mas sim conscientizá-los de que sua escolha não é necessariamente aquilo que eles julgam ser. Dessa forma, nosso foco principal neste ensaio não é falar dos rosacruzes (muitos dos quais são buscadores honestos de intenção); mas sim falar sobre o Rosacrucianismo propriamente dito (enquanto movimento filosófico), mostrando que suas bases históricas contradizem seu discurso “mitológico”.

Infelizmente falta a muitos estudantes de esoterismo da atualidade (assim como a muitos protestantes) uma base coesa de investigação, através de autores alinhados à Sagrada Tradição que apresentem uma visão digna dos conceitos primordiais que sustentam a espiritualidade clássica do Ocidente. Muitos dos argumentos usados pelos rosacruzes contemporâneos giram em torno de conclusões obtidas da leitura de autores alinhados ao pensamento esotérico moderno, que por ser iluminista, obviamente irá estimular (e divulgar de maneira falaciosa) uma pretensa “justificativa histórica” a correntes esotéricas modernas (e o Rosacrucianismo é uma dessas correntes). Porém, não há como uma corrente esotérica ser moderna e “clássica” ao mesmo tempo…posto que o moderno é, por si só, uma rejeição do clássico (GUÉNON, 2017).

Segundo Churton (2009), dos três manifestos rosacruzes, a Fama Fraternitatis é aquele que possui o texto mais claro em relação aos objetivos do movimento rosacruz: para o autor, o texto da Fama Fraternitatis deixa explícito a todo momento sua completa aversão a tudo que seja considerado “tradicional”, e enfatiza até mesmo o alinhamento ideológico de Christian Rosenkreutz às ideias de Lutero (ainda que Christian Rosenkreutz seja um personagem fictício). Assim, Tobias Churton faz uma análise detalhada de trechos da Fama Fraternitatis, explicitando as ideias reformistas de Johann Valentim Andreae (o verdadeiro autor do texto), como no trecho a seguir:

Após cinco anos, voltou seu pensamento à desejada Reforma; e como duvidasse do apoio e da ajuda de outros, embora fosse ele próprio pleno de vigor e perseverante, resolveu empreendê-la por sua conta, acompanhado apenas de alguns colaboradores (FAMA FRATERNITATIS apud CHURTON, 2009, p. 123. Grifo nosso.)

Aqui, vemos no próprio texto da Fama Fraternitatis que em nenhum momento, Johann Valentin Andreae (autor do texto) nega ou sequer disfarça os objetivos

O teólogo luterano Johann Valentin Andreae é o verdadeiro nome por trás de todo movimento rosacruz “clássico” do século 17. Foi Andreae que produziu os manifestos rosacruzes, usando o movimento como ferramenta de divulgação da Reforma Protestante de Lutero.

dos manifestos rosacruzes: promover as ideias da Reforma Protestante na Europa, e negar os princípios da Sagrada Tradição rejeitando a Metafísica do Catolicismo.

De acordo com a Fama Fraternitatis, o próprio Christian Rosenkreutz seria uma espécie de “monge decepcionado” com a doutrina católica (um perfil de personagem claramente inspirado em Lutero), que se tornou um “entusiasta” das promessas reformistas luteranas (CHURTON, 2009). Dessa forma, poderíamos nos perguntar: o que o Rosacrucianismo “clássico” realmente propunha, do ponto de vista religioso (além de suas promessas políticas)?

Bettencourt (1958) nos dá um esboço da resposta a esse questionamento: para o teólogo brasileiro, uma das chaves do movimento rosacruz para conquistar a simpatia do público europeu do século 17 foi apresentar o Rosacrucianismo não como uma religião, mas como um movimento espiritual “ecumênico” que iria misturar o melhor de várias correntes espirituais diferentes (obviamente rejeitando apenas a Metafísica católica, representante maior da Tradição Ocidental).

Para Bettencourt (1958), o Rosacrucianismo “diz que fala de Deus e da felicidade do homem, mas de maneira compatível com os credos religiosos” (BETTENCOURT, 1958, p. 5). Assim, o adepto de qualquer religião poderia estudar as ideias da Rosacruz sem ofender a sua fé, como estuda química, música, jurisprudência…

Percebemos aqui uma falácia grandiosa, disfarçada de “benesse”: ao mesmo tempo em que o movimento rosacruz “clássico” se apresentou como algo progressista (em oposição à doutrina católica, classificada como “obscurantista” e “intolerante”), o próprio Rosacrucianismo também exalava uma intolerância gigantesca ao conceito de “Tradição” (a mesma rejeição protestante).

Temos aqui o típico exemplo do “lobo vestido em pele de cordeiro”: os textos rosacruzes “clássicos” propõem uma utopia iluminista que buscava (e ainda busca!) a liberdade total do ser humano em todos os aspectos de sua vida (religião, comportamento, saúde, sexualidade, etc.). Porém, essa busca pela liberdade anda acompanhada de uma rejeição intolerante a qualquer vestígio da Sagrada Tradição, a única capaz de livrar o Homem de seus impulsos mais egoístas (AQUINO, 2001). Assim, com base no pensamento de Santo Tomás de Aquino, não podemos classificar o Rosacrucianismo “clássico” de outra forma que não seja como um movimento egoísta por essência, uma vez que a espiritualidade rosacruz é na prática, a espiritualidade protestante com ares esotéricos.

O Rosacrucianismo é um movimento esotérico moderno que usa um discurso liberal e ecumênico como forma de conquistar a simpatia do público. Assim, o Rosacrucianismo apresentou-se à Europa do século 17 como uma filosofia aberta a todos os credos (e não como uma religião). Porém, por trás desse suposto ecumenismo e tolerância religiosa, o Rosacrucianismo sempre guardou a intolerância protestante ao conceito de “Tradição”.

Na prática, o Rosacrucianismo é um misticismo esotérico protestante que abasteceu o Esoterismo Moderno durante os séculos 17 e 18 (ao lado da maçonaria especulativa), alimentando as Ordens Iniciáticas modernas com ideais aparentemente “nobres” e “tolerantes”. Porém, a base do Rosacrucianismo é justamente a intolerância e a desobediência: desobediência ao que é tradicional; e intolerância ao que é “ultrapassado”.

Por ser uma corrente esotérica de caráter anti-tradicional e reformista, o movimento rosacruz tem um claro apreço também ao Judaísmo…outra clara característica do Protestantismo, que idolatra os judeus considerando a religião judaica como “a religião de Cristo”, e tratando o Cristianismo como uma espécie de “Judaísmo renovado” (KREEFT, 2008).

Da mesma forma, é curioso notar que os manifestos rosacruzes clássicos insistiram na ideia de que não estavam divulgando nenhuma filosofia nova (quando na verdade, estavam!), ao mesmo tempo em que classificavam as ideias reformistas como “ideais espirituais milenares”, divulgados pela “Grande Fraternidade Branca”. Dessa forma, o Rosacrucianismo “clássico” propunha um Cristianismo empobrecido teologicamente (por ser protestante), ao mesmo tempo em que propunha uma filosofia de vida por vezes judaizante e por vezes paganizada. Assim, lemos por exemplo na Fama Fraternitatis: “nossa filosofia não é nova, mas semelhante à que foi recebida por Adão, e que Moisés e Salomão colocaram em prática” (FAMA FRATERNITATIS, 2004, p. 23).

O discurso de “grandiosidade” permeia todo o texto da Fama Fraternitatis: para isso, o manifesto repete várias vezes que várias personalidades dos séculos 16 e 17 eram (ou haviam sido) rosacruzes, como René Descartes, Francis Bacon e Paracelso. Tal estratégia buscava reafirmar a ideia de que o movimento rosacruz seria algo “milenar”, que serviria como “base de formação filosófica” a todos os grandes nomes da ciência iluminista (BETTENCOURT, 1958). Conforme veremos a seguir, esse discurso de “influência espiritual” do movimento rosacruz “clássico” vai ser ainda mais aprofundado no movimento neo-rosacruz do século 19, dando uma abordagem ainda mais caricata e confusa ao Rosacrucianismo, e fazendo dele um quebra-cabeças esotérico que guardou apenas uma fina essência das ideias do movimento rosacruz “clássico”.

  1. O neo-Rosacrucianismo: uma “colcha de retalhos” esotérica

Um dos principais argumentos rosacruzes atuais é apelar para um discurso de autoridade histórica em favor do chamado Rosacrucianismo “clássico”. Para os rosacruzes do século 21, o neo-Rosacrucianismo é um movimento esotérico falho porque se afastou da “verdadeira essência” do Rosacrucianismo “clássico” do século 17.

O leitor que ouve defesas tão apaixonadas à “superioridade” do Rosacrucianismo “clássico” pode até chegar a suspeitar que realmente haja algo de “tradicional” nos manifestos rosacruzes de 1614; porém, a história nos mostra outros fatos.

Como deixamos claro ao longo deste artigo, a ideia de que o Rosacrucianismo “clássico” é algo “milenar”, “mitológico” ou “superior” ao neo-Rosacrucianismo apenas por ser 200 anos mais antigo, é uma falácia esotérica moderna. Do ponto de vista histórico, 200 anos não são suficientes para caracterizar a superioridade filosófica de nenhum movimento espiritualista…uma vez que o alcance da história é muito mais amplo que as considerações humanas (KREEFT, 2008). Com base nisso, não é o fato de pertencer ao século 17 que faz do Rosacrucianismo “clássico” algo melhor que o neo-Rosacrucianismo (ou mesmo algo “tradicional”).

Infelizmente, a discussão que os rosacruzes da atualidade propõem sobre as diferenças entre o Rosacrucianismo “clássico” e o neo-Rosacrucianismo é uma discussão pueril, e lembra-nos muito os debates propostos pelas evangélicos a respeito da “superioridade” das igrejas pentecostais em relação às neopentecostais. Ora: teologicamente falando esse é um debate absolutamente inútil, uma vez que mesmo que o pentecostalismo seja “superior” ao neopentecostalismo, ambos continuam fora do seio da Tradição Espiritual Ocidental, justamente por serem correntes protestantes (DAWNSON, 2014). E o mesmo ocorre com o Rosacrucianismo.

Do ponto de vista filosófico, o Rosacrucianismo nem pode ser caracterizado como uma corrente “clássica” ou “tradicional”, uma vez que rejeita completamente quaisquer vestígios considerados tradicionais ou que se afinizem de alguma maneira à Metafísica do Catolicismo. Na verdade, como fruto direto da Reforma Protestante, seus objetivos eram acima de tudo políticos (e não espirituais): os manifestos rosacruzes divulgados (e produzidos!) por Johann Valentim Andreae eram ferramentas de propagação das ideias luteranas na Europa do século 17, inaugurando o Iluminismo e a divulgação de suas filosofias anti-tradicionais.

Diante de todos esses fatos, precisamos primeiramente entender o que é o movimento neo-rosacruz do século 19, para só então podermos compreender porque o chamado “Rosacrucianismo clássico” não é superior ao neo-Rosacrucianismo.

O neo-Rosacrucianismo é o aprofundamento filosófico do Rosacrucianismo “clássico”, ocasionado a partir do século 19. Segundo Tobias Churton, a principal característica do movimento neo-rosacruz é seu sincretismo: as Ordens neo-rosacruzes misturam elementos de diversas doutrinas e filosofias vigentes no século 19, e não se limitam mais a trabalhar apenas a espiritualidade rosacruciana divulgada nos manifestos rosacruzes “clássicos”. Assim, é comum vermos Ordens neo-rosacruzes que se dizem gnósticas, thelêmicas, e até mesmo espíritas (CHURTON, 2009).

Não iremos aqui citar nomes de instituições, nem mesmo entrar em detalhes sobre os sistemas iniciáticos propostos por cada Ordem neo-rosacruz da atualidade. O que nos interessa é mostrar a você leitor, que o neo-Rosacrucianismo é na verdade um verdadeiro “frankstein esotérico”: um conjunto de ensinamentos difusos e misturados, que muitas vezes se opõem diametralmente entre si e nem mesmo guardam relações filosóficas. Por isso mesmo, o movimento rosacruz moderno guardou pouco da essência protestante do Rosacrucianismo “clássico”, a ponto de algumas Ordens neo-rosacruzes nem mesmo se classificarem como cristãs! (BETTENCOURT, 1958).

De certa forma, o fato do neo-Rosacrucianismo não ter uma identidade sólida não é uma novidade: por ser um movimento originado da Reforma Protestante, o Rosacrucianismo (seja ele o “clássico” ou o moderno) guarda a essência reformista de sempre usar a seu favor tudo aquilo que considere útil à sua doutrina, sem necessariamente sentir nenhum remorso por isso. Assim, o fato de se apoderar de outros elementos (inclusive elementos da Sagrada Tradição) para constituir sua própria filosofia, não constitui um problema para os protestantes (e obviamente para os rosacruzes), uma vez que “Lutero diz que as boas obras não tornam um homem bom, e nem obras más tornam as pessoas más” (DAWNSON, 2014, p. 116).

De qualquer maneira, independente de beber de diferentes correntes filosóficas, o neo-Rosacrucianismo continua sendo um movimento anti-tradicional e avesso à Sagrada Tradição: as Ordens rosacruzes modernas defendem uma interpretação completamente distorcida do conceito de “Tradição”, muitas vezes associando a Tradição a qualquer coisa pagã que se diferencie da Metafísica judaico-cristã. Essa noção paganizada da Tradição é consequência direta da influência do pensamento de Helena Blavatsky sobre o pensamento das Ordens neo-rosacruzes, uma vez que Blavatsky era abertamente anti-cristã e defendia uma noção completamente paganizada da Tradição Espiritual Ocidental.

Segundo Bettencourt (1958), o neo-Rosacrucianismo é um movimento esotérico tão disperso, que

[…] professa uma filosofia que é uma visão integral do mundo; ultrapassa o plano dos métodos práticos de obter sucesso na vida, para dar resposta às questões que qualquer credo religioso considera. Com efeito, a ideologia neo-rosacruciana está estritamente baseada nas teses fundamentais do ocultismo: admite o monismo (uma só substância que se manifesta tanto no homem como na natureza) e a reencarnação (doutrina espírita), onde o indivíduo humano estaria sujeito a ciclos semelhantes aos da história universal; reencarnar-se-ia de acordo com as vibrações cósmicas! (BETTENCOURT, 1958, p. 9).

Considerações Finais

Podemos responder agora às perguntas feitas no início deste artigo: existe mesmo um Rosacrucianismo “clássico”? O movimento rosacruz pode ser considerado algo “tradicional”?

Há sim um movimento rosacruz inicial que deu origem ao Rosacrucianismo, no século 17. Todavia, esperamos ter deixado claro a você leitor, que o Rosacrucianismo “clássico” está longe de ser um movimento espiritual tradicional, e que o neo-Rosacrucianismo não passa do aprofundamento do movimento rosacruz “clássico”, misturado as correntes de pensamento em voga a partir do século 19.

Há diferenças consideráveis entre o neo-Rosacrucianismo e o Rosacrucianismo “clássico”? Sim, há. Porém, as diferenças grandes de abordagem dessas duas correntes rosacruzes repousa mais no modo de abordagem da doutrina rosacruciana, que na essência dessa doutrina propriamente dita (que continua tendo uma base anti-tradicional).

É importante que você leitor conscientize-se do fato de que o Rosacrucianismo é mais uma das correntes esotéricas modernas que se apresentam ao público de maneira “grandiosa” e “mitológica”. Ainda que as Ordens neo-rosacruzes possuam estudantes sinceros e dedicados entre seus membros, a essência do Rosacrucianismo não muda: trata-se de uma corrente filosófica que possui seu alicerce na Reforma Protestante do século 16, e que por isso mesmo não pode ser considerada “clássica” ou “tradicional” (ainda que muitos de seus membros assim a considerem), uma vez que um conceito não pode ser interpretado de duas maneiras diferentes ao mesmo tempo: ou é interpretado de uma forma, ou é interpretado de outra forma. Assim, o moderno não se torna tradicional (GUÉNON, 2017).

REFERÊNCIAS

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica: Vol. 1. Edições Loyola. Rio de Janeiro: 2001.

BETTENCOURT, D. Estêvão. O que é a Ordem Rosacruz? Rio de Janeiro, 1958. Disponível em https://www.veritatis.com.br/o-que-e-a-ordem-rosa-cruz/?__cf_chl_managed_tk__=pmd_8_3X5oTZGtCDdaoDWKm3ULHWRC709NWpX7u4pi4s_a8-1633535688-0-gqNtZGzNAvujcnBszRK9

CHURTON, Tobias. A história da Rosacruz: os invisíveis. São Paulo: Madras, 2009.

DAWNSON, Christopher. A divisão da cristandade. É Realizações Editora: São Paulo, 2014.

GUÉNON, René. A crise do mundo moderno. Tradução: Fernando Guedes Galvão. Instituto René Guénon de Estudos da Tradução – IRGET: São Paulo, 2017.

KREEFT, Peter. Manual de defesa da Fé: apologética cristã. Ed. Acadêmico: Rio de Janeiro, 2008.

 

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