O papel da Alquimia Laboratorial na busca pela Felicidade

 

Por Marcus Vinícius Monteiro

mmonteiroavelino@gmail.com

 

 

A busca pela felicidade e pela plenitude da existência são utopias que vem sendo alimentadas pelo ser humano desde épocas remotas. Diversas correntes filosóficas ao longo da história procuraram explicar ao Homem o motivo de sua existência, dando-lhe explicações de todos os tipos para justificar seu propósito de vida e seus objetivos neste mundo.

A Alquimia Laboratorial também forneceu ao ser humano chaves de compreensão a respeito de sua própria existência, mostrando-lhe que a Felicidade tão buscada pelo Homem não pode ser obtida em sua totalidade neste mundo, mas pode apenas ser vislumbrada através do início da manipulação da matéria nos trabalhos alquímicos (JUNIUS, 2019).

Neste artigo, tentaremos refletir um pouco sobre o significado da “Felicidade” a partir do viés católico, e sobre as falácias que são criadas em torno da busca de uma satisfação plena neste mundo. A partir daí, analisaremos de forma breve como a Alquimia Laboratorial pode auxiliar o ser humano na busca pelo sentido de sua existência, em conformidade com a Metafísica do Catolicismo.  

 

1. O que é “Felicidade”?

A discussão sobre a felicidade é um tema recorrente em inúmeros campos do conhecimento humano…desde a psicologia e economia, até segmentos como a biologia e a medicina. Também encontramos referências sobre o assunto na literatura e na poesia: um exemplo desta presença é um trecho escrito por um dos mais famosos autores e compositores brasileiros, Vinícius de Moraes, quando disse: “tristeza não tem fim, felicidade sim”.

Hoje em dia, tornar-se feliz é praticamente um compromisso assumido por todos de maneira quase obsessiva. Não nos surpreende que as livrarias estejam abarrotadas de pretensos “manuais da felicidade”, que se comprometem a mostrar o caminho para a “plenitude” do ser humano. Assim, por aproximadamente 35 reais você consegue comprar o “passaporte para a estrada de tijolos amarelos” sem seguir o Mágico de Oz (que o levaria de volta ao Kansas, tal qual a história de “Alice no País das Maravilhas”!), já que na sociedade moderna, quem nos vende o “mapa da felicidade” é o próprio “Mágico de Oz”…

A busca pela felicidade na sociedade moderna ganhou ares de utopia mágica. Neste sentido, a comparação dessa busca com o conceito moderno de “magia” tornou-se frequente, já que tudo parece ocorrer em um passe de mágica onde todos os acontecimentos dependem apenas do ser humano (BAUER, 2019).

A sociedade moderna divulga ao ser humano um ideal de “Felicidade” completamente alienado e surreal, deixando a visão do Homem moderno egoísta, materialista e afastada da busca pelo divino.

Em outros momentos, nos parece que o pensamento modernista defende a ideia de que muito mais importante do que ser feliz é “parecer feliz”. Assim, é cada vez mais comum que o Homem moderno queira mostrar aos demais que a sua vida é “sublime”, “estável”, sem altos e baixos. As redes sociais tornam-se ferramentas de divulgação dessa visão falaciosa de existência, na qual os perfis das mídias sociais geram inúmeros likes e engajamentos, adornados por fotografias repletas de filtros surreais, já que a realidade crua não é o bastante para nossos olhos tão acostumados aos estímulos visuais do dia-a-dia….o que faz com que o homem moderno, iludido por ideais iluministas, prefira viver numa redoma com uma felicidade ilusória, a lutar no mundo real e buscar melhorar a si mesmo (MONDIN, 1982).

A felicidade comum aos dias atuais é uma quimera alienante: uma ilusão que nos distancia do verdadeiro conhecimento de nosso propósito de vida. Cortemos essa ideia e procuremos de fato onde se encontra esse estado de contentamento.

 

2. O conceito de “Felicidade” na Metafísica católica

Tentaremos agora analisar o significado da felicidade humana a partir dos ditames da Sagrada Tradição, tentando entender o conceito de “felicidade” além das telas de celulares, tablets e demais dispositivos que vendem uma imagem surreal da existência do Homem.

Do ponto de vista católico, a felicidade só pode ser definida como a união direta com Deus (MULLER, 2014). Esta felicidade não é algo fugaz ou temporário, mas eterno: podemos atingi-la não pela satisfação de nossos desejos mundanos, mas pelo cumprimento da vontade de Deus, bebendo em suas fontes e verdades reveladas.

Teologicamente falando, a Felicidade é uma meta a ser alcançada num estado mais elevado de espiritualidade (e não através de questões mundanas). Lutar para alcançar a felicidade neste mundo, é estar sempre atrelado a desgostos e decepções, uma vez que as satisfações que obtemos no mundo físico são sempre parciais, fazendo da Felicidade do cristão uma meta a ser alcançada apenas sob um viés estritamente espiritual.

Por conta disso, nem mesmo nossos trabalhos espirituais podem ser considerados um fim em si mesmo: nossa dedicação espiritual é uma ferramenta de auxílio em nossa busca pela Felicidade (simbolizada no reencontro com o Pai Eterno). Assim, nem mesmo o trabalho com as Artes do Trivium Hermético (Astrologia Tradicional, Alquimia Laboratorial e Teurgia) são fins em si mesmo, pois tudo que o ser humano faz tende a lhe dar uma satisfação apenas momentânea. Por isso, por mais nobres que sejam as intenções do Homem, ele precisa ter sempre em mente sua busca por Deus, mesmo que faça uso de ferramentas espirituais para isso.

Embora nos pareça simples essa definição de “felicidade” sob o viés do Catolicismo, é lamentável perceber que nos últimos séculos nos distanciamos cada vez mais da ideia de atingirmos a Felicidade plena através da salvação de nossas almas.

Na Metafísica católica, a Felicidade plena só pode ser alcançada se for buscada num viés espiritual. Dessa forma, o Homem só pode ser feliz se colocar Deus como prioridade de sua vida, não se deixando satisfazer pelas alegrias passageiras do mundo.

Essa é uma ideia que soa ao Homem moderno como “metafísica demais”: avesso a todo tipo de disciplina ou submissão, o Homem moderno jamais aceita ser dependente de algo que não esteja atrelado a seus próprios desejos, e considera-se sempre “independente” e “autossuficiente”. Assim, admitir a obtenção da Felicidade apenas sob um viés espiritual (e não material) é algo quase inadmissível ao ser humano do século 21…que jamais admitiria como verdade as palavras bíblicas expressas por Jó: “Como é feliz o homem a quem Deus corrige; portanto, não despreze a disciplina do Todo-Poderoso” (JÓ 5:17)

Buscar a Felicidade é entender-se como parte de algo maior. Por isso, o ser humano feliz é aquele que consegue enxergar a si mesmo como um trabalhador da obra do Pai Eterno (MULLER, 2014). E é por conta disto que chamo a atenção do adepto da Tradição Espiritual Ocidental sobre a importância de saber buscar a Felicidade de maneira verdadeira (e não ilusória), resguardando sua busca a valores eternos e duradouros. Só assim sua Felicidade será permanente…e não lhe escapará das mãos, lhe deixando faminto e sedento por mais satisfações, sem nunca lhe deixar pleno e satisfeito.

Segundo nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, a Felicidade única deve sempre trilhar o caminho da bem-aventurança. Tal aspiração à felicidade e ao caminho da bem-aventurança tem origem divina, e foi posta em nossos corações por Deus Pai Todo-Poderoso, já que

“Todos, certamente, queremos viver felizes. Não existe no gênero humano, pessoa que não concorde com esta proposição, mesmo antes de ser formulada por inteiro. Então, como vos hei de procurar, Senhor? Visto que, procurando a vós, meu Deus, eu procuro a vida bem-aventurada, fazei que vos procure para que minha alma viva, pois meu corpo vive de minha alma, e minha alma vive de vós” (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 2017, p. 469).

 

3. O papel da Alquimia Laboratorial na busca do Homem pela Felicidade eterna

O desejo de buscar sua Felicidade sob um viés sobrenatural, liberta os homens das amarras do apego aos bens deste mundo. E somente aquele que vê a Deus pode ser considerado como alguém que obteve todos os bens que podemos imaginar, pois mais que já tenha visto bens pertencentes a este mundo (JUNIUS, 2019).

A Alquimia Laboratorial propõe ao Homem um trabalho de evolução espiritual a partir do manuseio direto da matéria-prima, por meio de trabalhos de purificação e cura. Porém, ainda assim, os trabalhos laboratoriais alquímicos têm um propósito definido: curar o ser humano de suas deficiências espirituais e físicas, fazendo com que sua busca pela Felicidade eterna seja iniciada de maneira digna e justa aos olhos do Altíssimo.

Para que tal objetivo seja cumprido o buscador deve amparar-se nas Virtudes Teologais, buscando o suporte necessário para trilhar esse caminho. Ao contrário do que muitas pessoas podem pensar, o trabalho laboratorial alquímico está intimamente ligado às 3 Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade), o que faz da Alquimia Laboratorial uma Arte Espiritual afim à Teologia católica.

Para algumas pessoas, parece incomum pensar na Esperança como um atributo associado ao trabalho com Alquimia Laboratorial. Todavia, segundo Josef Pieper (2018), as Virtudes Teologias significam o encaminhamento do Homem em direção à verdadeira realização de seu ser. Esse caminho em direção às Virtudes, esse “poder ser”, é muito bem representado na virtude da Esperança, que é “uma imperturbável direção para a plenitude de ser, quer dizer, para o bem, só e quando se origine da realidade da graça no Homem e se dirija à Felicidade sobrenatural em Deus” (PIEPER, 2018, p. 339).

Heliophilus, em sua obra “Alchemy Rising: The Green Book” (“O nascer da Alquimia: o Livro Verde”) contribui para o entendimento sobre o tema tratado neste ensaio. Não é estranho pensarmos que a Alquimia Laboratorial tem espaço nas buscas teológicas e espirituais do ser humano, uma vez que o insucesso das práticas esotéricas e teorias filosóficas modernas, de certa forma desiludiu muitos buscadores sinceros e ávidos por um pensamento espiritual tradicional. Assim, não por coincidência, muitos buscadores de espiritualidade voltaram ao seio da Sagrada Tradição, se reaproximando da Metafísica católica e do Trivium Hermético, tomando contato com os trabalhos alquímicos laboratoriais.  

A Alquimia Laboratorial pode ajudar o Homem a iniciar a busca pela Felicidade plena, o colocando em contato com o plano de Deus por meio do manuseio da matéria.

Segundo Heliophilus, o trabalho alquímico é importante na busca da Felicidade eterna porque modifica as noções do ser humano sobre sua própria existência. Assim, quando começa a manipular matérias-primas em seu laboratório (vegetais, minerais, etc.) o Homem vê-se livre de uma visão meramente materialista de mundo, mas enxerga na transformação da matéria a impermanência e a fragilidade da Criação e de seus elementos. Por isso, “When this work is developed, it will change our concept of Energy and Life[1] (HELIOPHILUS, 2015, p. 34)

Esta frase poderosa do autor, contém tudo o que é necessário na busca por um estado de Felicidade plena: ela nos leva ao espaço onde o operador/alquimista se coloca ao iniciar seu trabalho alquímico, e as mudanças que ocorrem ao longo dos anos no processo de “ora et labora” (“trabalha e reza”). É no laboratório que, segundo Heliophilus, o alquimista e as leis da natureza estão juntos trabalhando em harmonia, contando com a misericórdia de Deus Todo-Poderoso (HELIOPHILUS, 2015).

O papel do alquimista em seus trabalhos alquímicos, é justamente o papel do cristão que se volta a Deus, escuta seus ensinamentos e os vive na prática; aquele que podemos considerar como alguém que obteve todos os bens espirituais que poderíamos atingir, e que tocado pelo Espírito Santo, teve modificadas suas percepções sobre a vida e sobre si mesmo. Porém, é necessário que o buscador tenha noção do trabalho que estiver fazendo…e seja consciente de seu papel neste trabalho, para que não corra o risco de dedicar-se de maneira inconsciente à sua senda espiritual. Nesse sentido, “The only obstacle is the lack of a certain quality of consciousness[2] (HELIOPHILUS, 2015, p. 34)

Assim, podemos notar que a Sagrada Tradição permite ao adepto a possibilidade de não apenas reconhecer o que de fato é a verdadeira Felicidade, como encontrá-la através das práticas e vivências diárias por meio da Teologia do Catolicismo e das três Artes Espirituais do Trivium Hermético (no qual a Alquimia Laboratorial está inclusa). O conhecimento deste Trivium oferece ao praticante sincero o contato com o Sagrado (livre de relativismos e falácias modernistas), o fortalecimento das Virtudes Teologais, além do rompimento com os paradigmas do modernismo, que afastam o ser humano da busca pelo divino o prendendo a uma visão materialista e antropocêntrica de mundo.


[1] “O único obstáculo é a ausência de uma certa consciência”


[2] “Quando este trabalho é iniciado, ele muda nosso conceito sobre vida e energia”.

 

REFERÊNCIAS

A busca pela felicidade eterna (autor desconhecido). Portal Salve Maria, 2019. Disponível em <https://salvemaria.com.br/a-busca-pela-felicidade-eterna/>. Acesso em: 02/02/2022

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica: Vol. 1. Edições Loyola. Rio de Janeiro: 2001.

BAUER, Susan Wise. A mente bem treinada. Klasiká Liber: Curitiba/PR, 2019.

HELIOPHILUS, Alchemy Rising: The Green Book. Ed. Scarlet Imprint, EUA: 2015

JUNIUS, Manfred. Espagiria: Introdução à preparação alquímica das substâncias vegetais. Editora Laszlo: Belo Horizonte, 2019.

MONDIM, Batista. Curso de Filosofia, Vol. 2. Paulus: São Paulo, 1982.

MULLER, Gerhard Ludwig. Dogmática católica. Petrópolis-RJ: Vozes, 2014.

PIEPER, Josef. Virtudes Fundamentais. Ed. Cultor de Livros. São Paulo: 2018

VATICANO, Catecismo da Igreja Católica. Ed. Loyola. São Paulo: 2017

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