Entre o Céu e a Terra: encontros e desencontros de magos e astrólogos

Entre o Céu e a Terra: encontros e desencontros de magos e astrólogos

Por Frater M.F

A Tradição Espiritual do Ocidente é pautada em três artes herméticas (o Trivium Hermético) que tem grande influência sobre as práticas espirituais do homem ocidental. Porém, nem sempre o diálogo entre essas três artes é tão claro e coerente. Mais que isso: nem sempre os operadores da Tradição Ocidental conseguem dar atenção às três artes herméticas (Astrologia, Magia e Alquimia) de forma plena e equilibrada. Assim, é comum que cada buscador tradicionalista do Ocidente aprofunde-se mais em um ou outro aspecto de determinada arte, ou mantenham uma simpatia maior pelo trabalho específico de uma das três artes.

A relação mantida entre entre Astrologia e Magia dentro da Tradição Ocidental, sempre teve, via de regra, uma natureza colaborativa e até certo ponto íntima. “Fazer magia” sempre foi visto no Ocidente como algo que precisava ser realizado “com a ajuda dos astros”. E é justamente por esse tipo de pensamento, que Magia e Astrologia são consideradas as artes mais “generalistas” do Trivium Hermético, uma vez que oferecem um trabalho espiritual de certa forma “associado” através de uma mútua recepção (por meio dos frutos que ambas as artes oferecem), já que a Alquimia Laboratorial, por si só, exige de qualquer praticante conhecimentos teóricos e práticos bem mais específicos.

Todavia, “nem só de flores” vive a relação entre Magia e Astrologia: apesar de serem consideradas alicerces da espiritualidade ocidental, as duas artes divergem não apenas em um mas em diversos pontos cruciais para o perfeito entendimento de ambas, seja na visão que possuem sobre o mundo e a Criação, seja na ideia que defendem a respeito da posição do ser humano dentro da própria Criação (e de conceitos diretamente relacionados ao homem, como o livre-arbítrio).

Todas essas diferenças conceituais fazem magos e astrólogos trilharem vias práticas absolutamente diferentes (e por vezes até antagônicas): algumas vezes atingem os mesmos resultados (seguindo práticas distintas); em outras oportunidades, experimentam resultados distintos (mesmo seguindo métodos de trabalho aparentemente “similares”). Essas diferenças na natureza dos resultados e na abordagem metodológica do trabalho espiritual, se dá por conta das próprias diferenças de paradigma que magos e astrólogos possuem, além das próprias convicções individuais de cada praticante (como ser humano que é), e do modo como enxergam a arte hermética que estão utilizando.

Mas, que divergências são essas? O que pregam Magia e a Astrologia? Onde essas artes se aproximam e onde se distanciam para seus praticantes?

Responder a todas essas perguntas requer cautela, uma vez que a grande variedade de pensamentos, convicções e preferências espirituais dos praticantes de cada arte nos impede de chegar a uma conclusão simples sobre o assunto. A Astrologia, por exemplo, possui no mínimo duas grandes tendências básicas de manifestação no Ocidente: a “Astrologia Tradicional” (considerada uma das três artes do Trivium Hermético da Tradição Ocidental, e que engloba os conhecimentos astrológicos da antiguidade e da Idade Média); e a chamada “Astrologia Moderna” (pertencente ao corpo de “ensinamentos” do Esoterismo Moderno, e responsável por distorcer os conceitos astrológicos tradicionais, mudando seu foco de atuação).

Já a Magia também possui duas formas básicas de manifestação na Tradição Ocidental: a chamada “Magia Clássica”, que tem uma visão divina do processo mágico, e faz uso de parafernálias cerimoniais e Liturgias rebuscadas como forma de manter contato com espíritos e entidades contactadas); e a “Magia Moderna”, que tem uma visão essencialmente mentalista e defende uma abordagem humanista do processo mágico, fazendo do ser humano seu foco de atenção a partir dos ideais do Iluminismo).

Neste artigo iremos tentar abordar uma descrição básica de cada uma dessas duas artes herméticas (Magia e Astrologia), antes de analisar as diferenças de pensamento entre os praticantes de ambas e porque o discurso de astrólogos e de magos sofrem desencontros quase inconciliáveis.

Astrologia: a arte de consultar os astros na escolha dos momentos momentos

A Astrologia é a arte hermética mais popularizada (e por isso mesmo mais vulgarizada!) no senso comum. Desde o século 19 e da popularização da chamada “astrologia teosófica” de Alan Leo (que popularizou o conhecimento astrológico através da divulgação de horóscopos em jornais de grande circulação na Inglaterra), a Astrologia tem sido deturpada e considerada uma “ciência dos astros”, que seria “comprovável através de números exatos” (como forma de aproximá-la do paradigma científico moderno).

Conceituar a Astrologia é uma tarefa árdua, uma vez que há basicamente dois tipos antagônicos de estudo astrológico: o primeiro é a chamada Astrologia Tradicional, abordada largamente em todo o Ocidente até o século 18 e responsável pela divulgação de grandes tratados astrológicos ocidentais como a “Astrologia Cristã” (Willian Lilly), o “Tetrabiblos” (Ptolomeu) e a “Astrologiae Galicae” (Morin de Villefranche). Essa vertente astrológica se caracteriza por uma abordagem mais rígida e delimitada dos corpos celestes, fazendo uso exclusivo dos chamados “7 planetas tradicionais” (Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno). Além disso, a Astrologia Tradicional tem um foco quase que exclusivo na predição de acontecimentos, motivo pelo qual é considerada por muitos astrólogos modernos como “pessimista” ou “fatalista”. Apesar disso, a vertente tradicional astrológica vem sendo recuperada no Ocidente, e o interesse por seu estudo cresceu vertiginosamente nas últimas 3 décadas.

A outra vertente astrológica é a chamada “Astrologia Moderna”, abordada atualmente em todo o Ocidente (e utilizada amplamente em correntes filosóficas e Ordens iniciáticas do Esoterismo Moderno). Essa vertente é uma mistura de conceitos trabalhados na Astrologia Tradicional e conceitos filosóficos/espiritualistas trabalhados na Europa do século 19, a partir do avanço do Iluminismo sobre a espiritualidade ocidental.

Na Astrologia Moderna o estudo dos astros é deixado em 2º plano e feito de forma “científica”, numa tentativa de popularizar a Astrologia e atrair a ela alguma forma de “respeito acadêmico” por meio de uma aproximação mecânica ao método científico moderno.

Para os astrólogos tradicionais a Astrologia Moderna se transformou numa espécie de “auto-ajuda cosmológica”, pois faz uso dos astros com o único objetivo de oferecer aconselhamentos de teor psicológico.

Como procura apresentar-se como uma “ciência”, a Astrologia Moderna trabalha de forma íntima com o paradigma científico moderno e com todas as “descobertas científicas” que julgue úteis a seus “ensinamentos”. Por isso, o número de astros abordados na vertente moderna da Astrologia é maior (10 planetas), ao invés dos 7 planetas usados na Astrologia Tradicional (sem o uso de Urano, Netuno e Plutão). O foco maior da Astrologia Moderna é a auto-ajuda, uma vez que ela não dá ênfase à predição de acontecimentos (amplamente abordada na Astrologia Tradicional).

Segundo a astróloga tradicionalista brasileira Clélia Romano, a Astrologia Moderna “[…] atualmente beira o aconselhamento psicológico, o que depõe contra a psicologia e contra a astrologia: nenhuma das duas coisas é praticada corretamente” (ROMANO, 2011, p. 11).

Como se vê, a Astrologia vive uma nítida divisão de abordagens dentro de seu próprio corpo de conhecimentos: astrólogos modernos e tradicionalistas discordam em vários pontos a respeito da prática astrológica, criando polêmicas em torno da divulgação de um conceito único de Astrologia, que não dependa simplesmente do viés filosófico/espiritualista de cada astrólogo (como muitas vezes defendem os adeptos da Astrologia Moderna).

Para Romano (2011), a Astrologia:

[…] é a ligação entre o humano e o divino, entre a realidade manifesta e suas relações formais com o noumenon, para usar a denominação de Kant, que significa o ser verdadeiro, a essência por detrás do fenômeno visível e aparente. A sabedoria só é adquirida recuperando essa relação entre o mundo material e o espiritual. (ROMANO, 2011, p. 13).

Como vemos no conceito apresentado pela astróloga brasileira Clélia Romano, a Astrologia é a arte de se trabalhar com o mundo espiritual, e esse mundo é representado essencialmente no movimento dos corpos celestes. É através desse movimento que os astrólogos justificam seus estudos, afirmando que a arte de poder prever quais movimentos serão efetuados pelos corpos também dará conhecimento sobre que influências esses movimentos trarão sobre os seres humanos.

Se levarmos em conta este conceito lúcido e coerente apresentado pela astróloga brasileira, chegaremos à conclusão de que a Astrologia Moderna, por si só, perdeu grande parte da essência que caracteriza o próprio trabalho astrológico: a análise da posição dos astros e sua influência sobre a vida do ser humano. De fato, essa é a grande crítica sofrida pela Astrologia Moderna, por parte dos astrólogos tradicionalistas: para estes, a Astrologia Moderna é uma simples forma de “psicologia cósmica”, uma vez que usa os astros para dar aconselhamentos e opiniões de auto-ajuda para os consulentes.

Para grande parte dos astrólogos tradicionais, a prática do aconselhamento deve ser feita prioritariamente por psicólogos e demais profissionais, e não pelo próprio astrólogo: a esses (astrólogos) caberia unicamente consultar os astros e ver a situação cosmológica do fato requerido pelo consulente, explicando-lhe de forma útil e clara os fatos que irão se desencadear na situação consultada. Esse tipo de pensamento é rechaçado de todas as formas possíveis pelo astrólogo moderno: para ele, a Astrologia não é uma “arte” e sim uma “ciência” que consegue delimitar o movimento dos astros e que por isso mesmo não pode defender uma visão fatalista e imutável dos acontecimentos. Assim, de acordo com Hutin (1970, p. 19), “os astros orientam, mas não determinam”.

A Astrologia Moderna foi muito utilizada nas Ordens Iniciáticas da Europa no século 19. Conforme veremos adiante, essas Ordens Iniciáticas estavam ansiosas por buscar um maior respeito não só à Astrologia, mas também à prática de Magia (motivo pelo qual essas Ordens também tentaram aproximar a prática mágica do conceito moderno de “ciência”). Por conta disso, as Ordens iniciáticas modernas utilizaram (e ainda utilizam) a Astrologia de uma forma simplificada, tentando antes de tudo popularizá-la e dar a ela uma “aura de facilidade” em torno de seus conceitos a partir de informações de fácil acesso ao público (como a divulgação do horóscopo em jornais e revistas populares).

É justamente com a popularização do chamado Esoterismo Moderno, que a Astrologia e a Magia começaram a manifestar choques conceituais e a comungar de visões distintas sobre a espiritualidade como um todo: para muitos astrólogos tradicionalistas, a prática de Magia estaria mais próxima do que a Astrologia Moderna defende do que do que eles mesmos (astrólogos tradicionalistas) consideram como “um ato mágico válido”. Além disso, o próprio conceito de “Magia” defendido pelos praticantes desta arte, aparentemente parece incomodar os astrólogos tradicionalistas (mas não os astrólogos modernos!), fazendo com que as discordâncias conceituais aumentem ainda mais (conforme veremos a seguir).

Magia: a arte de se ocasionar transformações de acordo com a Fé e a Vontade do praticante.

Falar em Magia é falar basicamente de duas coisas:

  1. Ações voltadas ao progresso espiritual do praticante, seja por meio do contato com espíritos e entidades das mais diversas naturezas, seja através de um trabalho espiritual centrado no ser humano;
  2. Ações voltadas essencialmente a transformar estados e situações no plano físico, ou a desencadear efeitos físicos tangíveis a partir de operações com seres e forças de natureza sutil.

Assim como a Astrologia, a Magia também não é uma arte unificada: basicamente há duas manifestações de trabalho mágico na Tradição Ocidental, que seguem modus operandi distintos: a “Magia Clássica” (ou grimórica) foi amplamente praticada nas Idades Média e no Renascimento; e a “Magia Moderna” passou a ser praticada em meados do século 18, sendo utilizada até os dias atuais no Esoterismo Moderno.

A “Magia Clássica” se caracteriza por uma abordagem mais evocativa ou devocional da prática espiritual, defendendo o contato com espíritos e entidades celestiais como forma de se obter conhecimento espiritual direto. A “Magia Moderna” (assim como a Astrologia Moderna) se caracteriza por diversos tipos de “sub-sistemas” mágicos e abordagens filosóficas/espirituais que tem um fundo psicológico intenso baseado nos ideais propagados pelo Iluminismo.

Para a Magia Clássica, a prática mágica consiste justamente de trabalhar em conjunto com espíritos, anjos e demais entidades como forma de se obter resultados concretos e manifestações no plano físico.

A “Magia Clássica” se caracteriza como uma abordagem completamente baseada no contato com espíritos, e sem nenhum apelo psicológico. Para essa abordagem mágica não existe a simples fórmula de “evocar–perguntar–banir”, comumente usada em evocações mágicas modernas; pelo contrário: segundo o mago tradicionalista Aaron Leitch, a Magia Clássica sugere uma forma de trabalho em parceria com os espíritos evocados, já que “[…] the classical texts describe a system of ongoing relationships with individual spirits” (LEITCH, 2013, p. 20). Assim, na “Magia Clássica”, a convivência com espíritos é uma realidade concreta para o mago, e essa convivência não deve ser considerada apenas no âmbito de operações cerimoniais, mas também no próprio cotidiano do operador.

O convívio com espíritos e entidades das mais diversas categorias, pode ter dois objetivos distintos na “Magia Clássica”: o mago clássico pode procurar obter puramente conhecimentos espirituais através desse contato (trabalho mágico clássico conhecido como “Teurgia”); ou pode procurar obter resultados materiais que mudem suas condições de vida (trabalho mágico clássico conhecido como “Taumaturgia”). Seja como for, no contexto mágico clássico, não é simplesmente a vontade do operador que manda: ele depende da cooperação das entidades evocadas e da própria Vontade de Deus, que é Todo-Poderoso (ao contrário do mago!), e que rege completamente suas investidas. Nesse tipo de ação mágica, não basta simplesmente “querer”: é preciso “saber fazer” o que se quer, trabalhando com Fé aliada à Vontade.

A Magia Moderna (praticada a partir do século 19 nas Ordens Iniciáticas europeias) deu mais independência e autonomia ao ser humano. Aqui, os desejos do “mago” ganharam importância e se tornaram a principal ferramenta da prática mágica, ao lado de um aspecto mentalista que também se fortaleceu bastante com o advento da Psicologia (a partir do século 20).

De acordo com o mago moderno Chic Cícero, a Magia pode ser definida como uma arte que causa mudanças “no ser humano”(e não necessariamente no plano físico), já que a prática mágica é a:

[…] Arte e ciência de provocar mudança de acordo com a vontade. Essa mudança pode ocorrer (1) no mundo manifesto, exterior; (2) na consciência do mago; (3) com mais frequência nos dois, pois mudar um quase sempre resulta na mudança do outro. […] Os efeitos da magia são, algumas vezes bem visíveis no mundo físico e, outras vezes, aparentes apenas em um nível pessoal, espiritual (CÍCERO, Chic, 2008, p. 78)

Como percebemos, as duas vertentes de Magia (Clássica e Moderna) possuem conceitos muito distintos em relação ao modus operandi da arte mágica (assim como as Astrologias Tradicional e Moderna possuem visões distintas sobre a consulta aos astros). Enquanto a “Magia Clássica” parece se focar exclusivamente em conceitos celestiais, espirituais e metafísicos, a “Magia Moderna” parece dar ao ser humano o próprio comando da prática mágica em si, através da realização de seus desejos. E é com base nesse conceito moderno de prática mágica, que muitos astrólogos (especialmente os tradicionalistas!) rejeitam a prática de Magia. Para os astrólogos tradicionalistas, a Magia não pode ser considerada uma ação “focada no homem”, pois ele (ser humano) por si só não teria a capacidade de originar as mudanças que almeja por conta própria. Assim, caberia ao próprio homem consultar os astros como forma de conseguir localizar uma forma de obter os resultados que almeja, conforme veremos no tópico a seguir.

Entre o Céu e a Terra: o que separa astrólogos e magos?

Vimos ao longo deste artigo, que tanto a Astrologia quanto a Magia são artes herméticas que não são unificadas: ambas se dividem entre vertentes mais Tradicionais e correntes Modernas, que possuem abordagens absolutamente distintas sobre o mesmo objeto. Porém, ainda que ambas (Magia e Astrologia) possuam fortes divisões de abordagens em seu próprio escopo, o questionamento principal deste artigo permanece aberto: por que certos astrólogos parecem não ver com bons olhos a prática de Magia? Por que alguns astrólogos tradicionalistas parecem não encarar a prática mágica como algo “possível” de ser realizado, ou mesmo como algo “factível”?

A resposta a essas perguntas fica mais fácil de ser obtida agora, após termos apresentado ao leitor as diferenças conceituais entre as diferentes categorias de Magia e de Astrologia.

Os astrólogos tradicionalistas possuem um forte choque de paradigma não só com os astrólogos modernos, mas também com os próprios adeptos de Magia. Já sabemos que a Astrologia Moderna foi utilizada de forma intensa nas Ordens Iniciáticas europeias do século 19, e foi extremamente simplificada para que se tornasse popular entre os não-iniciados dessas instituições. Com isso, a Astrologia Moderna foi incorporada à Magia Moderna, e a rejeição que alguns astrólogos tradicionais parecem sentir em relação à prática de Magia se dá justamente por essa aproximação que ocorreu entre Magia Moderna e Astrologia Moderna no século 19.

Para muitos astrólogos tradicionalistas brasileiros, a prática de Magia e a ideia de que se pode modificar o destino (ou os efeitos dos astros sobre o ser humano) soa como algo absolutamente non sense. Para esses astrólogos, por melhores que sejam as intenções de um mago ele nunca conseguiria escapar de previsões ou delineamentos astrológicos indesejáveis a si, apelando somente para a Magia.

O erro neste tipo de pensamento de alguns astrólogos, reside no fato de que Magia e Astrologia não são artes antagônicas, mas sim pertencentes à mesma “tríade espiritual” da prática espiritual do Ocidente (o Trivium Hermético). Isso faz com que o trabalho espiritual com uma dessas artes, leve quase que necessariamente ao trabalho com a outra (e também com a Alquimia Laboratorial, a 3ª arte hermética). E essa constatação só é obtida com experiência direta e com trabalho operativo nas duas artes (e não somente com trabalho operativo em uma delas).

Os astrólogos tradicionalistas que discordam da prática de Magia como algo realizado pelo ser humano, não são essencialmente “fatalistas”; ao contrário: ele até admitem que se possam prever fatos desagradáveis ao homem antes que aconteçam; mas não conseguem aceitar a ideia de que esses fatos possam ser modificados através da prática mágica. Isso lhe parece uma ideia essencialmente contrária à sua própria visão espiritual de mundo, que contraria (em sua visão) os princípios da Astrologia Tradicional, e que transformaria a Magia em algo “supersticioso”, “mandingueiro” ou mesmo “uma mera perda de tempo”.

Para muitos astrólogos tradicionalistas, a única forma de se modificar (ou reduzir o impacto) de delineações cósmicas desfavoráveis, é se trabalhar de maneira mística em relação aos próprios astros: oferecer “presentes” aos planetas (oferendas), em datas previamente delineadas (de preferência nos dias do próprio planeta com o qual se deseja trabalhar), e em períodos onde o astro consultado esteja bem localizado no céu (tendo que se recorrer à Astrologia Eletiva). Essa é a chamada “magia astrológica”: uma forma menos evocativa e mais devocional de se tentar obter a atenção dos astros e suas energias, como maneira de se agradá-los (sem necessariamente se recorrer a evocações de espíritos, ou mesmo se utilizar a vontade do ser humano como critério principal da operação).

Raras vezes vemos astrólogos tradicionalistas operarem Magia de maneira não linear (ou não atrelada aos astros). Geralmente, o astrólogo tradicionalista se aproxima da prática de Magia quando escolhe uma data propícia para se fazer algo (Astrologia Eletiva) ou quando confecciona remédios ou tratamentos médicos a partir de eletivas (Magia Natural). A prática de “magia astrológica” também é uma forma de aproximação (ainda que totalmente sujeita ao paradigma astrológico). Ainda assim, essas “práticas mágicas” realizadas pelos astrólogos tradicionalistas são extremamente sujeitas aos astros, ficando de certa forma “engessadas” e deixando o operador completamente à mercê das efemérides astrológicas.

Por outro lado…, os magos também utilizam a Astrologia de forma essencialmente utilitária. Magos clássicos tendem a utilizar mais a Astrologia Tradicional em suas operações, e magos modernos tendem a aceitar com menos preconceito o uso da Astrologia Moderna em seus “experimentos”. Independente de qual vertente o mago opte por usar, sua preocupação com os planetas se restringe quase que exclusivamente à escolha de uma data propícia para seus rituais (Astrologia Eletiva), e mesmo nessa escolha os magos não se deixam levar por todas as regras astrológicas utilizadas pelos astrólogos tradicionais: simplificam ao máximo as efemérides e só costumam usar a Astrologia quando o grimório utilizado ou a própria operação mágica exigem isso. Esse tipo de conduta mágica utilitária e mais simplificada é muito utilizada em célebres grimórios mágicos como as “Clavículas de Salomão”.

Não queremos aqui condenar astrólogos ou magos; na verdade, a questão não se trata de julgar quem está “certo” e quem está “errado”. Magos e astrólogos possuem visões diferentes sobre a espiritualidade, e cada um busca obter da arte “alheia” apenas aquilo que lhe é conveniente a seus propósitos. No entanto, algo deve ficar claro: dentro do estudo da Tradição Espiritual Ocidental, todo aquele que desejar se aprofundar no trabalho com o Trivium Hermético deverá experimentar (de forma prática!) as três artes espirituais do Ocidente (e não apenas sua arte “preferida”).

Enquanto o mago busca na Astrologia o estudo dos momentos corretos e das efemérides para seus rituais, o astrólogo tradicionalista parece buscar na Magia tão somente o desejo de agir, de se mover em busca de um ideal e de um objetivo; porém, esse desejo não é tratado como se fosse uma capacidade intrínseca ao ser humano, pois o astrólogo tradicionalista acredita firmemente que o máximo que o ser humano pode conseguir em relação a delineamentos astrológicos desfavoráveis é se precaver para reduzir o impacto dessas previsões. Por isso, como regra geral, o astrólogo tradicionalista não se sente um “mago”; ele na verdade se sente um “servo das estrelas”.

Poderíamos dizer que ambos estão errados? Não. Na verdade, o conceito de “certo” e “errado” neste caso torna-se ambíguo, e transforma-se apenas em um detalhe diante de toda a questão. Magia e Astrologia nem sempre tem os mesmos objetivos, e não tem obrigação nenhuma de se alinharem. Todavia, a consciência de que o trabalho com ambas é necessário ao aprofundamento de qualquer buscador da Tradição Ocidental deve ser uma realidade.

Apesar de serem artes espirituais distintas, que operam por vias distintas, Magia e Astrologia possuem diálogos concretos e coerentes: esses diálogos se manifestam (ou deveriam se manifestar) em suas vertentes tradicionais (Astrologia Tradicional e Magia Clássica). A Astrologia Tradicional, por si só, é a base do trabalho espiritual da própria Magia (e também da Alquimia Laboratorial), pois é ela que fornece às outras 2 artes do Trivium Hermético as janelas operativas necessárias para o (maior) sucesso dos trabalhos espirituais.

O fato de alguém ser competente no estudo dos astros não o torna necessariamente competente na arte mágica…mas também não implica na desistência dessa pessoa do estudo da Magia. Da mesma forma, a competência na arte mágica e na escolha de datas corretas para se operar rituais (Astrologia Eletiva) não faz de ninguém um “astrólogo”; mas não impede esta pessoa de se aprofundar no estudo da Astrologia Tradicional.

Que fique claro ao leitor que a Astrologia é absolutamente necessária à prática de Magia; assim como a prática de Magia também é necessária para a solidificação dos conhecimentos astrológicos. Porém, cabe a cada mago ou astrólogo saber como fará uso da “arte alheia”, ou seja: cabe ao mago decidir se usará a astrologia Tradicional apenas como oráculo e ferramenta de definição de datas (eletivas); e ao astrólogo tradicionalista decidir se usará a Magia apenas como ferramenta de iniciativa pessoal, atrelada exclusivamente aos astros e suas recomendações (o que em geral ocorre, uma vez que astrólogos não praticam magia por a acharem “cansativa” e supersticiosa; alguns não praticam nem mesmo a magia talismânica, tão citada nos grimórios medievais e cuja a recomendação de utilização da Astrologia é intensa).

De nossa parte utilizamos exclusivamente a Astrologia Tradicional, e recorremos sempre que possível aos conhecimentos astrológicos como forma de enriquecer a própria prática mágica em si. Porém, temos consciência de que isso não nos torna “astrólogos” (no sentido profissional e estrito do termo). Ainda assim, a Astrologia não é (e nem pode ser) relegada exclusivamente ao uso dos astrólogos, pois isso a limitaria e reduziria seu campo de utilização. Cabe a cada praticante da Tradição Ocidental (seja ele astrólogo ou mago), ter consciência da necessidade de utilização das 3 artes do Trivium Hermético, sem fazer uso de “preferências” ou de escolhas que coloquem o uso de uma arte em detrimento da utilização da outra.

O Trivium Hermético é um só, e nele Astrologia e Magia operam de forma sistemática e compartilhada.

REFERÊNCIAS:

CÍCERO, Chic. O essencial da Golden Dawn: uma introdução à Alta Magia. São Paulo: Madras, 2008.

HUTIN, Serge. História da Astrologia. Lisboa-Portugal: Edições 70, 1970.

LEITCH, Aaron. Secrets of the Magickal Grimoires: the classical texts of magick deciphered. Minnesota: Lewellyn Publication, 2013.

ROMANO, Clélia. Fundamentos da Astrologia Tradicional. 2ed. São Paulo: edição do autor, 2011.

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