Entendendo a Tradição Espiritual do Ocidente – Parte 1

Entendendo a Tradição Espiritual do Ocidente - Parte 1

Por Frater M.F

É comum na atualidade vermos correntes filosóficas ou espirituais que se dizem pertencentes à Tradição Ocidental, ou mantenedoras do “verdadeiro esoterismo do ocidente”. Nunca se falou tanto em “Tradição Ocidental”, “ecumenismo” e “sincretismo”, como se tem falado no último século, após a expansão (e popularização) do Esoterismo Moderno.

A expressão “Tradição Espiritual Ocidental” transformou-se, a partir do século 20, numa espécie de comprovação de “seriedade espiritual”: só as correntes espirituais e filosóficas que conseguissem se alinhar ao que a modernidade classifica como “tradicional”, é que merecem ser vistas com respeito. O problema é que a interpretação que a modernidade dá à expressão “Tradição Ocidental” não abrange os valores morais e espirituais pertencentes à espiritualidade do homem do Ocidente, e nem consegue abranger a Ética e a Moral com as quais o Ocidente moldou historicamente seu modo de vida.

O que o Esoterismo Moderno (e suas Ordens Iniciáticas) consideram como “pertencentes à Tradição Ocidental”, na verdade está distante da essência da espiritualidade tradicional, pautada no trabalho com o Trivium Hermético (Astrologia, Alquimia e Teurgia) e em valores morais caros ao homem ocidental. Muitas vezes, o Esoterismo divulgado nas Ordens Iniciáticas e filosofias modernas nem mesmo é “ocidental”: trata-se de um mistura de conceitos filosóficos e espirituais orientais e ocidentais, mantidos unidos a partir de um sincretismo mecânico e aparentemente sem critérios.

Dessa forma, propomos uma reflexão ao leitor: o que você acha que significa realmente a expressão “Tradição Espiritual Ocidental”? Qual é a base filosófica e teológica da espiritualidade praticada no Ocidente?

Não queremos aqui dar uma resposta imediata a esses questionamentos. O que nos interessa neste momento, é mostrar a você leitor, que a espiritualidade do Ocidente é pautada em valores morais que estão fora da abordagem espiritualista proposta pela modernidade. Esses valores tem sido transmitidos no ocidente há muitos séculos, e não dependem do tempo (motivo pelo qual são considerados “valores perenes”). Foram esses valores que sobreviveram ao longo da história humana e que serviram de base à espiritualidade praticada no Ocidente.

Para entendermos que valores são esses e o que realmente significa a expressão “Tradição Espiritual Ocidental”, estamos iniciando uma série de artigos que tentará elucidar a você leitor, qual o real significado do termo “Tradição”, e o que realmente pode ser considerado como “tradicional”. Primeiramente analisaremos o significado da Tradição à luz de autores ocidentais como Aquino (2001), Guénon (2017) e Dubuis (2000). A partir daí, mostraremos ao leitor que a essência e os valores da Tradição Espiritual do Ocidente estão distantes do que o Esoterismo Moderno erroneamente considera como “tradicional” (e divulga através das inúmeras Ordens Iniciáticas pós-século 18).

Esperamos com isso, conscientizar o leitor de que nem tudo que se vende atualmente como “tradicional” é realmente algo alinhado à Tradição, ou aos valores morais trabalhados no Ocidente.

“Tradição”: que palavra é essa?

A modernidade transformou a palavra “Tradição” numa espécie de símbolo de defasagem. O termo “tradicional” virou sinônimo de tudo que é ultrapassado, arcaico ou obsoleto. Mais do que isso: a visão moderna (pautada no Iluminismo), propagou a ideia (deturpada!) de que tudo que é tradicional também é atrelado a valores indesejáveis ao homem moderno, como ignorância intelectual, grosseria, intolerância, saudosismo, teimosia ou mesmo implicância contra valores progressistas.

Essa visão estereotipada sobre o que significa o termo “tradicional”, passa por uma completa ignorância da filosofia moderna a respeito do que significa o termo “Tradição”, além da influência prejudicial do Iluminismo sobre o pensamento do homem ocidental contemporâneo (conforme iremos abordar ao longo deste artigo). Entender o que significa o termo “Tradição” é um passo necessário para se compreender o que significa a Tradição Espiritual Ocidental, e como ela é estruturada.

Para o filósofo René Guénon, a oposição da modernidade à Tradição é antes de tudo fruto da oposição iluminista a tudo que possa ser considerado tradicional. Para o autor, essa ignorância moderna a respeito do que significa a Tradição é fruto direto das ideias iluministas que classificavam a Idade Média como um “período de trevas”, “escuridão intelectual”, “fanatismo”, e “ignorância”…assim como considerava o Renascimento como um “retorno à glória da antiguidade greco-romana”. Guénon enfatiza que o crescimento da modernidade não foi necessariamente algo apenas positivo, mas também prejudicial (do ponto de vista filosófico), já que a modernidade não corrigiu nada que afirmava estar errado na Idade Média, mas sim

“[…] marcou uma queda muito mais profunda, pois consumou o rompimento definitivo com o espírito tradicional, quer no campo das ciências e das artes, quer até mesmo no campo religioso, no qual tal ruptura teria sido dificilmente concebível” (GUÉNON, 2017, p.18).

Ao contrário do que a modernidade divulga, a Tradição não é algo estático: é antes de qualquer coisa, algo vivo, transmissível, perene. Ela não se diluiu ao longo do tempo: seus valores foram moldados de acordo com cada povo ou cultura na qual ela foi transmitida; mas sua essência manteve intacta as bases primordiais da mensagem divina que Deus Todo-Poderoso transmitiu aos homens ao longo da história humana. Por isso mesmo, a Tradição manteve-se viva ao longo dos séculos.

A transmissão da Tradição se dá de forma oral e escrita, de acordo com os hábitos de cada sociedade, manifestando-se a partir dos recursos tecnológicos de cada período da história humana. Há sociedades em que a Tradição se manifesta de forma essencialmente oral (como nos casos das culturas xamânicas ou aborígenes); em outras, ela encontra também formas de manifestação escrita, através de obras religiosas, culturais ou mesmo políticas. Isso não a impede também de manifestar-se na própria modernidade; porém, o que é mais comum (conforme veremos ao longo desta série de artigos) é que a Tradição seja negada na espiritualidade moderna, através de uma deturpação sistematizada de conceitos. Seja como for, o termo “Tradição” refere-se essencialmente a tudo que é transmitido espiritualmente, culturalmente e filosoficamente aos seres humanos, seja de forma oral, seja de forma escrita (GUÉNON, 2017).

São Tomás de Aquino classifica a Tradição como algo equilibrado e pautado na oferta de justiça ao ser humano. O conceito de “Tradição” trabalhado por Aquino estende-se tanto ao campo da religião, quanto à política, à cultura e a todas as formas de conhecimento manifestadas pelo ser humano. Assim, o homem depende da Tradição como uma forma de obter nela a justiça e a dignidade providas por Deus, para manter sua vida em equilíbrio (AQUINO, 2001).

Uma das características da Tradição é sua capacidade de perpetuar-se na história da humanidade. Isso faz com que o depósito dos valores tradicionais seja realizado não só de forma documental, mas acima de tudo de forma prática, nos ensinamentos orais do dia-dia, de boca a ouvidos. Todavia, é importante destacar também o fato de que, por mais que a Tradição aparentemente adote características distintas em cada povo no qual se manifesta, nem todos os povos e culturas aceitaram de forma pronta a Verdade revelada por Deus. Assim, ainda que a Verdade revelada (Cristo) tenha sido divulgada a vários povos e nações, foi na cultura Judaico-Cristã que essa Verdade ganhou corpo e passou a se manifestar ao Homem como a mensagem divina enviada pelo Todo-Poderoso à humanidade.

O fato da Tradição ter revelado a mensagem de deus a vários povos e culturas, não implica necessariamente na compreensão (ou mesmo aceitação) da Verdade revelada. Por isso, as diversas roupagens que a Tradição adotou em suas manifestações nos diferentes povos ao longo da história, não implica necessariamente numa “igualdade” ou “equivalência” das religiões (como a espiritualidade moderna erroneamente prega).

É inegável que no Ocidente, a Tradição anda de mãos dadas com o Judaico-Cristianismo. A influência da religião judaico-cristã sobre o conceito de “Tradição” é clara (sendo o Catolicismo o principal representante do Judaico-Cristianismo no Ocidente). Isso incomodou o Iluminismo, que se opunha ferrenhamente à religião por acreditar que a prática religiosa era uma expressão social do tradicionalismo, e mantinha a sociedade ocidental em estado de “aprisionamento intelectual”. Segundo Coomaraswamy (2017) esse tipo de pensamento iluminista é facilmente constatado na estrutura de produção econômica da sociedade moderna, em que:

[…] as atividades básicas do homem são destituídas de qualquer senso do sagrado, como ignorantes dos princípios metafísicos. Ao passo que o ponto de vista tradicional, ao contrário, se baseia na doutrina de uma queda a partir de um estado de graça e na necessidade da Revelação e da graça divinas para que o homem possa retornar à sua condição primordial e sagrada, a seu Centro mesmo, provendo-o também de uma metafísica, que explica a essência e razão de ser da própria natureza humana”. (COOMARASWAMY, 2017, p. 15).

Como se vê, a palavra “Tradição” não se refere somente a aspectos políticos, culturais ou econômicos do ser humano: refere-se essencialmente a valores morais e espirituais. Tradição e espiritualidade são coisas que andam quase juntas (às vezes até unidas), e tentar descaracterizar essa união (ou mesmo caracterizá-la como algo “prejudicial” ao ser humano) foi uma tentativa inútil (e bastante maléfica à sociedade ocidental) que o Iluminismo fez, a partir do século 18.

O ser humano é religioso por natureza, e sua essência lhe diz que ele deve procurar a Deus, seja por inspiração divina, seja por esforço próprio (AQUINO, 2001). A forma mais segura de se empreender essa tarefa é através da Tradição: é ela que fornece meios adequados ao homem de realizar sua busca pelo divino, livre dos vícios, sincretismos e deturpações tão frequentes nos ideais modernos.

Como a modernidade não conseguiu derrubar a essência da Tradição, ela passou a recorrer a estratégias que tentassem fragmentar esse conceito. Essa tentativa de fragmentação da Tradição foi respaldada a partir de uma das correntes de pensamento mais fortes do Iluminismo: o relativismo. Para o homem moderno (e naturalmente

A modernidade empreendeu uma verdadeira “guerra” contra tudo que é considerado “tradicional” (a partir dos ideais do Iluminismo), na tentativa de fragmentar a essência da Tradição no Ocidente.

iluminista) tudo parece ser relativo: não se pode concluir nada sobre assunto nenhum, e muito menos tirar conclusões sobre questões de interesse humano, sob risco de se desconsiderar os detalhes que cercam essas questões (cometendo assim uma generalização). Assim, o Iluminismo passou a defender a ideia (relativista) de que o conceito de “Tradição”, por mais forte que seja, não pode ser considerado uma coisa só, e depende do local, da cultura e da época em que está inserido. Dessa forma, para o Iluminismo, haveriam várias “tradições” no Ocidente (e não simplesmente uma única “Tradição”).

Gaudron (2011) contradiz essa ideia moderna e relativista sobre a existência de “várias tradições”. Para o autor, o fato de existirem diferentes manifestações dos valores tradicionais (que dependem de circunstâncias culturais e sociais de cada época da história humana) não invalidade a existência de uma Tradição única. Essa Tradição não depende das diferenças que os homens guardam entre si, ao contrário: é algo divino, independente, autônomo. Assim, a Tradição “é o depósito da Fé, que foi confiado de uma vez por todas, e que o magistério deve transmitir e proteger até o fim do mundo” (GAUDRON, 2011, p. 232).

O autor alemão vai ainda mais além, e confirma a ideia de a Tradição é algo divino, imutável e perene, sendo o depósito da mensagem divina revelada à humanidade:

“O depósito revelado é absolutamente imutável. Mas esse depósito imutável é expresso de modo cada vez mais preciso pelo Magistério, que o inventaria e o classifica, ao mesmo tempo em que o transmite e o defende. […] A Tradição é viva no sentido em que o depósito revelado não é transmitido somente de modo morto, em escritos, mas também o é por pessoas vivas que tem autoridade para defendê-lo, dar-lhe o devido valor e fazer que seja vivido” (GAUDRON, 2011, p. 232).

Como vimos neste artigo, ser tradicional é ser fiel a valores que transcendem o tempo. O que é considerado uma “generalização” pela modernidade, é para os tradicionalistas uma simples constatação (dedução): não existem “várias tradições distintas”; existem sim, várias manifestações culturais que receberam a divulgação da Verdade revelada através de roupagens culturais diferenciadas (sendo a cultura judaico-cristã a principal dessas roupagens na vida espiritual do Ocidente). Assim, é sobre esse conceito de “Tradição” que a espiritualidade Ocidental se apoia, conforme veremos nos próximos artigos desta série.

REFERÊNCIAS

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica: Vol. 1. Edições Loyola. Rio de Janeiro: 2001.

COOMARASWAMY, Rama. Ensaios sobre a destruição da tradição cristã. Instituto René Guénon de estudos Tradicionais – IRGET. São Paulo: 2017.

GUÉNON, René. A crise do mundo moderno. Instituto René Guénon de estudos Tradicionais – IRGET. São Paulo: 2017.

GAUDRON, Matthias. Catecismo católico da crise na igreja. Ed. Permanência. Niterói-RJ: 2011.

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